Vadios Azores Sketchers desenham juntos a Lagoa e a ilha todos os sábados

São artistas anónimos e amadores que dão forma e cor à rubrica “Lagoa à Vista”, na contracapa do Diário da Lagoa. O que é o urban sketching, a mais recente parceria do DL?

Ugolina Batista e uma dezena de desenhadores urbanos, de vários pontos da ilha, juntaram-se no Porto dos Carneiros para desenhar a paisagem envolvente FOTO DL

Ugolina Batista, sem “p” – fez logo questão de precisar – tem 80 anos e é urban sketcher, um estrangeirismo que não imaginava vir a fazer parte do léxico da sua vida, e que vamos tentar explicar neste artigo. Enquanto desenha, o chapéu bege de abas largas escondem-lhe o rosto e quase a idade, pergunta inevitável. Resposta: “para ser mais simpático pode escrever que são quatro vintes”, diz sorrindo, a antiga professora primária que foi também coordenadora de metodologia e práticas pedagógicas.

Para Ugolina, o estrangeirismo é novo mas a paixão pelo desenho é antiga. A entrada para a Associação Vadios Azores Sketchers (AVAS) tem um ano. “Junto-me a eles porque gosto, tenho que ocupar os meus dias e ocupar o meu tempo e em vez de estar a ver TV estou fazendo desenho e muito bem acompanhada, o grupo é simpático”, garante. A versatilidade é característica que garante ter. “Gosto de desenhar com tudo, lápis, caneta, o pincel, qualquer coisa serve e percorro a ilha toda a desenhar”, destaca.

“Não pinto o que não gosto”
A conversa com a mais velha desenhadora da AVAS aconteceu às portas do Porto dos Carneiros, na freguesia do Rosário, na Lagoa. O alpendre junto à antiga lota do porto de pescas lagoense é local habitual dos locais da zona mas numa das manhãs de sábado foi invadido por cadeiras de campismo, lápis, pincéis, aguarelas e tintas de quase todas as cores. Ugolina desenha um dos barcos que vê atracados no porto, o mesmo que Ana Cláudia Correia escolheu para alimentar a criatividade. A paixão pela arte de imprimir no papel, através das mãos, aquilo que os olhos vêem, é de família. A mãe sempre pintou e os pincéis, com mais de 20 anos, são legado a que ela dá uso. “Pensamos que o mar é sempre azul e não é, é verde, hoje é cinzento, o nosso mar aqui nos Açores tem muitas cores”, conta a economista natural de Ponta Delgada que não tem dúvidas de que, para o papel, só passa o que ela quer: “não pinto o que não gosto, quando há um poste de luz que não gosto não pinto. No outro dia mostrava uma pintura que fiz de Ponta Delgada e diziam-me que parecia uma cidade fantasma”, conta a rir.

Assume que a sua modalidade preferida, se é que a designação existe neste mundo de desenhos urbanos, é a pintura a aguarela e a ausência do rigor a que o desenho a lápis obriga. A economista foca-se na natureza e é nela que se inspira: “isto para mim é uma forma de meditação. Quando venho pintar nestes encontros nao falo com ninguém, fico completamente concentrada no que estou a fazer e parece que o resto que está à minha volta desaparece”, conta Ana Cláudia que se juntou à AVAS em março passado.

Cadernos gráficos servem para desenhar e simultaneamente compilar por ordem cronológica os trabalhos dos sketchers FOTO DL

“Acaba por ser um viciozinho do melhor que há”
Susana Teles Margarido é a autora do desenho deste mês da rubrica Lagoa à Vista, uma parceria celebrada entre o Diário da Lagoa e a AVAS, que mostra um elemento da Lagoa, a quem nos lê, desenhado na contracapa do jornal. “Toda a gente consegue desenhar, se for para o desenho ficar igual ao objeto real a pessoa tira uma fotografia. Nós vamos olhar as duas para o mesmo barco mas vamos ter desenhos diferentes porque a nossa visão é diferente, o nosso estilo de risco é diferente”, explica a socióloga também natural de Ponta Delgada. “Antes olhava para cima e via o céu azul com nuvens brancas. Hoje olho para o céu e vejo que tem cinza, violeta, branco.

Isto do desenho depois acaba por ser um viciozinho do melhor que há”, garante Susana que começou do zero sem saber praticamente nada sobre a arte. “Via os trabalhos do Paulo no facebook, como achava os trabalhos dele extraordinários comecei a contactá-lo. No ano passado ele disse-me porque é que não te juntas a nós? Arrisquei. Quando cheguei ao encontro era tão inexperiente, levei uma aguarelas de criança, uns pincéis de criança, só depois percebi que o material não era adequado mas depois um deu-me uma folha de papel, outro emprestou-me as aguarelas e claro que os primeiros desenhos eram os meus desenhos”, conta a socióloga que hoje não perde os encontros de sábado que acontecem todas as semanas num local, previamente escolhido pelo grupo via Facebook.

Instalado na sua cadeira de campismo, à semelhança de outros sketchers, Eduardo Machado desenha a antiga lota do Porto dos Carneiros. Dedica-se ao desenho há mais de 40 anos. Está aposentado mas os dias são curtos para uma agenda tão cheia. Para além de ser ceramista, pintor e radioamador também é sketcher. “Para estar aqui hoje tive de atrasar uma série de coisas, mas vale a pena, a amizade que se gera é óptima, o Paulo é muito dinâmico, põe sempre o grupo a andar”, garante. Toda a gente fala com carinho de Paulo Brilhante.

Paixão pelo desenho levou Paulo Brilhante a fundar a Associação Vadios Azores Sketchers em 2019 FOTO DL

Quem desenha garante que toda a gente consegue desenhar
Mas afinal, o que é um urban sketcher? Fizemos a pergunta ao fundador da AVAS. “O mundo do urban sketching começa com o Gabi Campanário que é um jornalista espanhol que estava a viver em Seattle, nos Estados Unidos. Ele estava na rua, não tinha a sua máquina fotográfica e necessitava de registar uma notícia. O que ele fez foi desenhar o acontecimento em vez de fotografá-lo e em 2007 começa o grupo dos urban sketchers”, começa por explicar Paulo Brilhante, residente na Lagoa. O diretor comercial na área da construção civil é o mentor dos encontros da AVAS que decidiu criar para que, quem gosta de desenhar o que vê, o pudesse fazer com mais frequência. “Já temos 47 encontros realizados, houve uma interrupção na quarentena mas fazíamos encontros virtuais e a associação tem cerca de 50 sócios, onde cada encontro tem entre 10 a 20 pessoas”, explica Paulo Brilhante. Também ele garante que o desenho é para qualquer um, mesmo para quem ache que não tem jeito para o desenho ou nunca tenha desenhado: “ é um desenho de observação, aprende-se a observar, há técnicas, há proporções, tudo o que sei fui aprendendo com outras pessoas ao longo dos anos”, garante.

Os sábados têm encontro certo mas, sempre que um quer desenhar e outros também, num qualquer dia da semana, combinam através de um grupo que têm online, e encontram-se num lugar da ilha. “Ainda ontem fomos desenhar perto do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e uma colega disse-me «ah Paulo isto é tão bom desenhar, não pensamos em mais nada, estamos concentrados em colocar no papel o que vemos, ficamos ali a contemplar a beleza e acabamos por observar elementos que muitas vezes nos escapam numa passagem ligeira”, conta Paulo.

Enquanto desenha a lápis as fachadas coloridas de várias casas no Porto dos Carneiros, o fundador da AVAS fala do gosto que tem em investir no desenho, e durante a conversa com o DL, por várias vezes é abordado pelos sketchers que vão chegando ou perguntando o que acha. Mas as interrupções não chegam só dos colegas: “nos locais em que desenhamos, as pessoas por vezes interagem connosco, fazem perguntas e dizem «ah está muito bonito», são sempre comentários muito elogiosos, e nós ficamos contentes naturalmente”, conta.

O local da próxima paragem, para o próximo retrato de um pedaço da ilha, é sempre escolhido no convívio anterior. No final de cada manhã de sábado, estes desenhadores urbanos assentam arraiais na casa de um deles para uma petiscada. Ugolina, a mais velha e mais experiente sketcher do grupo não duvida que “o mais giro destes encontros é estarmos juntos, isso é lindo, é uma riqueza muito grande”.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2020)

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