Xenofobia 2.0 – Para refletir(mos)

Luís Furtado
Enfermeiro

Nos últimos dois meses tenho acompanhado as discussões que são mantidas nas redes sociais, em certos grupos, relativas à freguesia de Rabo de Peixe, designadamente, no que ao cumprimento das regras sanitárias diz respeito. Esta reflexão em nada incide sobre as regras sanitárias impostas, a sua adequação e duração, mas sim sobre o estrondoso enxovalhamento a que a freguesia e as suas gentes foram sujeitas.

Se por um lado existe um problema social que tarda em ser resolvido, independentemente dos vários agentes políticos que a cada momento detiverem o poder e os meios para o tentar resolver, e que este problema social impacta na forma como a pandemia é gerida, por outro, esta circunstância não pode levar a que, na segurança dos nossos lares, no conforto das nossas cadeiras, por detrás das armaduras que são os monitores dos nossos computadores, e armados de poderosos teclados, possamos insultar, rebaixar e inferiorizar os habitantes da freguesia de Rabo de Peixe, particularmente aqueles que residem nas zonas mais desfavorecidas e, por tal, mais vulneráveis e desprotegidas. O nível do insulto, a absoluta desconsideração pelas pessoas, e pelos seus direitos, são de difícil qualificação. Nos últimos dois meses parece que muitos se sentiram legitimados a atacar, gratuitamente, e sem qualquer tipo de restrição ou refreamento, a população daquela freguesia de um modo que não tenho memória.

Noutros tempos, quando vivíamos num contexto em que não se normalizava o discurso de ódio, nem o ataque às minorias, fossem elas étnicas ou sociais, este tipo de conduta era, por força da pressão social, contida. Os filtros sociais, o respeito pelo outro, e pela sua dignidade, porque é isto que está em causa, o direito à dignidade e ao respeito, refreavam e silenciavam ímpetos xenófobos.

Sim, ímpetos xenófobos, porque é disto que estamos a falar, de xenofobia!

Para aqueles que necessitam de uma análise mais técnica do conceito, recordar que o substantivo feminino xenofobia é definido como a desconfiança, o temor ou a antipatia por pessoas estranhas ao meio daquele que as ajuíza. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados vai mais longe, e admite que a xenofobia pode ter lugar visando pessoas de características físicas e até de ancestralidade partilhada, bastando que esteja apenas presente o elemento da estranheza. Assim, a xenofobia pode estar presente dentro do mesmo país por meio da expressão de sentimentos de aversão, hostilidade e rejeição, mas também de atitudes discriminatórias, mesmo violentas, de natureza física, verbal e psicológica.

Se pararmos um pouco para pensar, se formos às inúmeras publicações feitas em grupos e perfis nas redes sociais, visando o combate à pandemia na freguesia de Rabo de Peixe, vamos encontrar insultos, hostilidade, rejeição, violência verbal e psicológica visando aquela população.

Repito, esta reflexão, em nada, versa sobre a natureza das medidas de combate à pandemia impostas na freguesia de Rabo de Peixe, diz única e exclusivamente respeito à forma como, enquanto sociedade, decidimos ultrajar e enxovalhar uma população, de forma gratuita e sem qualquer consequência.

Será mesmo esta a sociedade que pretendemos deixar como legado às gerações futuras?

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de abril de 2021)

Categorias: Opinião

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